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Ensinando
integridade
Prof.
Tania Zagury
Contou-me uma amiga que, outro dia, seu filho chegou a casa exultante...
Afinal, não é sempre que se “tira dez”
em Física... Ela percebeu, no entanto, que o professor
havia se enganado na correção. Qual não foi
sua surpresa quando ele lhe disse que não poderia, de forma
alguma, apresentar o erro para revisão, porque “ninguém
devolve nota”... Foi preciso muita paciência para
convencê-lo. Tinha medo das “gozações”
dos colegas.
Às vezes um fato corriqueiro nos faz perceber quantos difíceis
dilemas as crianças terão que resolver, até
que se tornem adultos íntegros.
Não faz muito tempo, ser “um bom menino” significava,
como dizia o palhaço Carequinha, não fazer pipi
na cama nem fazer malcriação, concluir o trabalho
de casa com capricho, deixar o quarto mais ou menos arrumado,
não falar palavrão, dirigir-se respeitosamente aos
mais velhos; tarefas, enfim, razoavelmente simples de serem aprendidas.
Isso porque valores como honestidade e integridade não
estavam ainda em discussão.
Ser um “bom menino” hoje significa não apenas
saber o que é certo ou errado, mas também conseguir
se opor a atitudes que contrariam os princípios norteadores
da sociedade - o que não é nada fácil nem
para adultos, quanto mais para crianças e jovens.
Opor-se ao grupo e fazer escolhas adequadas demandam forte grau
de segurança. Mais ainda: significam que nossos filhos
têm que estar certos, em primeiro lugar, de que solidariedade,
justiça e honestidade, por exemplo, não estão
“fora de moda”. Precisam, acima de tudo, acreditar
que, mesmo quando parte dos homens não respeita esses princípios,
não há a mínima condição de
vivermos com segurança sem eles.
Como convencê-los, no entanto, se a TV, as novelas, as atitudes
de muitos adultos, os jornais, alguns programas humorísticos
e até certas músicas, os bombardeiam com mensagens
antiéticas? Como convencê-los, se parte dos colegas
com os quais convivem quebram vidraças, desrespeitam os
mais velhos, picham muros, destroem o mobiliário das escolas,
dirigem sem carteira aos dezesseis anos ou falsificam documentos
para poder entrar nas boates antes da idade permitida em lei,
por vezes com a anuência dos responsáveis?
Criar adultos dignos depende basicamente de duas coisas: da maneira
pela qual nós, pais, vivemos o dia - a - dia e da confiança
que temos nos valores que guiam nossas ações. Ou
seja, é necessário não só sermos íntegros,
mas também não duvidarmos da força dos nossos
princípios. Quando crianças e jovens percebem nos
seus mais fortes modelos segurança inabalável na
retidão, na cooperação, na honra –
independente do que estejam fazendo os vizinhos, parentes e amigos
– eles muito provavelmente também acreditarão.
Se, ao contrário, já que há tanta corrupção
e impunidade, os próprios pais começam a lassear
seus conceitos ou a repetir diariamente “que o Brasil não
tem jeito”, em que irão seus filhos acreditar? Por
que e para que irão lutar?
O perigo maior para um jovem não são as drogas -
é não crer no futuro e na sociedade em que vive.
A falta de esperança, essa sim, é que pode levar
à depressão, ao individualismo, ao consumismo exacerbado,
ao suicídio, à marginalidade e às drogas.
Em contrapartida, a convicção num caminho produtivo
a ser trilhado e o desejo de contribuir fazem com que os jovens
progridam, criem, estudem e realizem. E para ter essa confiança
eles precisam conviver com pessoas que, não apenas vivam
de acordo com esse modelo, mas também que não se
deixem abalar pelas notícias negativas que saem diariamente
na mídia. Existe sim gente desonesta, o que não
significa que muitos outros - muitos mais - não sejam dignos,
trabalhadores e corretos. Precisamos lutar vigorosamente para
que nossos filhos percebam que quem leva o Brasil adiante é
“a maioria silenciosa”, aquela que é formada
por pessoas honestas e trabalhadoras, e que, por isso mesmo, não
constituem notícia, nem, portanto, aparecem nos jornais
e na TV.
Os pais têm papel primordial na estruturação
do caráter dos filhos. Resgatar a ética é
hoje questão de sobrevivência. Que jovem poderá
resistir às pressões negativas de uma sociedade
em crise, se não aquele que tenha internalizado o respeito
por si próprio e pelo outro? Para isso é preciso,
em primeiro lugar, que se reconheçam num modelo –
isto é, que saibam quem são, que façam identificações
adequadas. E para tanto precisam de modelos fortes e seguros,
que não duvidem nem desanimem a cada notícia negativa
nos jornais, ou a cada mau exemplo nas vizinhanças.
Muita gente acha que ensinar integridade é impossível
nos tempos modernos. Talvez ignorem que isso se faz basicamente
através de exemplos concretos de vida. Se os pais, “sem
muito discurso”, vivem de acordo com princípios,
estarão encorajando os filhos a seguirem seus passos, mesmo
sem perceber. Quer dizer, não mentindo, não aceitando
uma conta errada no restaurante, chegando à hora combinada
aos encontros, respeitando a lei, não mudando ou querendo
mudar as regras do jogo de acordo com as conveniências do
momento, e, especialmente, não disseminando amargura e
descrença, simplesmente porque nem todos agem de maneira
honesta. Na grande maioria dos casos, essa forma de viver será
suficiente para que seus filhos acreditem nos valores... Afinal,
não podem contestar – estão vendo! - vocês
vivem de acordo com o que defendem!
Por fim é bom lembrar que, especialmente quando nossos
filhos chegam à adolescência, quase com certeza,
irão opor alguma (ou bastante) resistência ao que
defendemos. Não nos deixemos iludir pelas aparências
– especialmente não desanimemos! Eles estão
lutando para serem independentes, e isso pode significar ficar
contra tudo (literalmente TUDO, para nosso desespero) que nós,
pais, postulamos. Ainda que seja difícil acreditar, nossas
lições nunca são inúteis. Enquanto
nossas atitudes forem coerentes com nosso discurso, estaremos
provendo a base para a qual eles retornarão, quando a época
da rebeldia terminar. E, mesmo na fase mais aguda de autoafirmação,
raramente se afastarão dos conceitos essenciais. Poderão
até fazer algumas bobagens, mas nada que fira de forma
irremediável a ética e os valores que aprenderam,
por toda sua curta vida, a respeitar.
Mesmo quando parece que não nos ouvem nem veem, é
a nossa integridade que serve de fundamento para nossos filhos,
hoje e sempre.
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